Isabel olhou para o seu próprio peito vendo-o a subir e descer com a respiração pesada. O chão de areia queimava-lhe as costas enquanto tentava recuperar um bocado as forças. Não estava arrependida de ter vindo para o meio do deserto, mas desejava ter trazido mais água. Pensara que por esta altura já teria encontrado o templo, mas enganara-se, e agora, com a visão turva pelo calor, amaldiçoava a escolha.
Levantou-se com esforço e olhou para o fundo do cantil. Decidiu dar um golo. Quanto mais aguentaria?
A areia dançava-lhe à volta dos pés, enterrando-os um pouco, enquanto avançava. Nada mais havia do que azul e amarelo por quilómetros e quilómetros, e por isso a sua mente vagueava para sítios mais familiares.
Imaginava a montanha, onde a sua casa ficava, tão cheia de cor e texturas; os canais dos velhos troncos, as duas faces das folhas verdes, amarelas e vermelhas, as pequenas aldeias que os cogumelos selvagens formavam… Tudo à espera do retorno dela, para poderem voltar a ser observados.
Tentou esfregar os olhos vermelhos que lhe começavam a pregar partidas, mostrando ao longe um lago imenso, capaz de lhe saciar a sede. Sugou a água morna e acabou com o cantil ao molhar a cara e a cabeça para se tentar refrescar e diminuir a dor de cabeça.
Agora sentia-se a dar tudo o que tinha, o templo era tudo o que ela pensava, caminhou mais rápido, com passos mais largos, por uma areia agora mais dura.
Teve uma cãibra na perna que a atirou ao chão, esfolando os braços e as mãos. Tentou esfregar o músculo controlando o tremor que surgiu, mas de nada adiantou e por isso, cerrou o punho e bateu na perna a chorar. A dor acalmou e ela enrolou-se no chão para se controlar, soprando para as feridas que também choravam.
Alguns momentos mais tarde, levantou-se com esforço, tropeçando no ar, cambaleando como se a empurrassem de todos os lados. Olhou à volta, esperançosa de ver o templo, mas o que viu deitou-a abaixo, caindo de joelhos com o peso da realidade.
Uma tempestade de areia aproximava-se com toda a força e, em breve, arrastaria com ela a visão de Isabel e todas as possibilidades de encontrar o templo.
Isabel voltou a levantar-se, vomitando com o esforço, depois cobriu a cabeça com um lenço, deu uns passos diagonais e acabou a desmaiar…
Sentia-se quente e fria ao mesmo tempo. Sentia panos molhados que lhe refrescavam a pele sensível, arranhando-a ao mais pequeno movimento. Queria abrir os olhos, mas estes ardiam e também eles estavam tapados- Gotas escorriam-lhe pelas bochechas, mas não sabia se eram água dos panos ou lágrimas. As feridas de ter caído latejavam suavemente e a sua garganta continuava seca.
Mexeu o braço direito a custo, levitando-o sobre o tapete áspero onde estava deitada.
-Não te mexas. – sussurrou-lhe uma voz masculina por cima do assobio da tempestade de areia.
-Água… – arranhou a voz dela.
Sentiu o homem a aproximar-se, colocando-lhe uma palhinha na boca e a água do pote desapareceu em pouco tempo. Pediu mais num suspiro desesperado e o homem obedeceu, trazendo-lhe mais dois potes cheios de água que ela devorou em minutos.
Tentou virar a cara para retirar os panos de cima dos olhos, mas o homem impediu-a logo:
-Tem remédio, ajuda a curar mais rápido as queimaduras do sol. Não tires para já.
-Onde estou?
-No mesmo sítio onde caíste no deserto. Montei a minha tenda à volta. Tiveste sorte em eu ver-te antes da tempestade. Toma, come.
O homem aproximou carne salgada dos lábios gretados dela, alimentando-a até ficar satisfeita, depois afastou-se para a deixar adormecer.
Acordou com o homem a mexer nos panos da sua mão. A tempestade continuava com toda a força, não sentia o peso dos panos nos olhos e por isso abriu-os, deparando-se com uma tenda castanha e velha.
A tenda não era muito grande, apenas continha o essencial, vários potes empilhados a um canto, um pequeno fogão transportável e um baú, que Isabel pensou conter comida e roupa, o chão estava coberto por um tapete multicor, em que estava deitada.
O homem usava uma túnica às riscas azuis e amarelas e tratava das suas feridas com um enorme cuidado.
-Obrigada.
O homem sorriu, continuando o que estava a fazer. – Devias ter mais cuidado. O deserto é perigoso, não devias vir tão desprevenida.
-É que… - hesitando por breves momentos – estou à procura de um templo, mas não o consigo encontrar.
Ele levantou a cabeça da sua mão e olhou-a nos olhos, como se a tivesse a estudar, quando finalmente falou, fê-lo com uma voz ainda mais grave.
-Deve ser algo mesmo muito importante para te aventurares desta maneira. Podias ter morrido só para encontrar o templo.
-Sabes onde fica?
-Sei.
O coração de Isabel bateu mais depressa, sentiu necessidade de se pôr a pé, mas o homem previu o seu pensamento e colocou-lhe a mão no ombro para a impedir. – Eu preciso de ir lá, o mais rápido possível.
-Vais ter de aguardar até a tempestade passar.
-Quanto tempo?
-Depende da tempestade, algumas duram semanas…
-Eu não tenho semanas. Eu nem sei se ainda tenho tempo…
-Infelizmente, esperar é tudo o que podemos fazer. Sair da tenda com uma tempestade destas não seria sensato. A própria tenda já está enterrada em areia até meio.
Isabel deixou estar no tapete enquanto o homem lhe acabava de tratar das feridas, enquanto ouvia o assobio da tempestade e a noite chegava.
O templo era conhecido por conceder um desejo a quem o encontrasse no meio do deserto, mas eram poucos o que o encontravam, o deserto era vasto e nem todos sobreviviam a ele. Os poucos que conseguiam alcançar o templo tinham ainda que provar que o seu desejo era nobre, pois se não fosse o templo desapareceria diante dos seus olhos e nunca mais o conseguiriam encontrar. Contudo o poder do templo também não era infinito…
José, o homem que a salvou, ajudou-a a levantar-se para comer. Os panos continuaram enrolados aos seus membros e não se mexeram o jantar todo.
-O que é isto? – olhando para a sopa que ele tinha feito, que continha pedaços de carne branca de aparência estranha.
-Cobra. – respondeu – É bom. Não há muita comida no deserto. – acrescentou ao ver a expressão que Isabel fez.
Saber o que era, era pior, pois o sabor em si nada tinha de especial, no entanto esforçou-se para engolir rápido.
-Que desejo é que pediste? – perguntou Isabel.
-Para ajudar pessoas.
-Isso é um pedido estranho…
-Eu tinha um namorado que foi espancado e morto por ser quem era. Eu não o pude ajudar, cheguei tarde. Tive também de fugir e eventualmente encontrei alguém que me falou sobre o templo. O meu primeiro pensamento foi de pedir para o ter novamente comigo e foi com esse pensamento que me aventurei no deserto. Quando finalmente encontrei o templo percebi que onde quer que ele tivesse estava em paz e que o que eu queria era egoísta, por isso pedi que eu conseguisse chegar a tempo para ajudar outras pessoas.
-Foi por isso que chegaste mesmo a tempo de me encontrar desmaiada, antes da tempestade…
Ambos acabaram de comer em silêncio, até que José lhe perguntou qual o desejo dela.
-A minha irmã está doente, tem cancro. Eu quero pedir para que ela melhore e não morra.
A cada dia que passava a tenda tremia menos com a tempestade, a areia começava a puxar pelo tecido a querer entrar. Uma semana depois de ter começado, a tempestade parou. Isabel ajudou José a retirar as suas coisas debaixo da areia e olhou à volta no deserto, contudo parecia igual, areia e céu por quilómetros.
-Para que lado é o templo?
José retirou do bolso da túnica uma bússola e apontou. – Eu levo-te lá.
A caminhada foi rápida, tinham estado perto do templo aquele tempo todo. O templo era simples de pedra amarela, gasta pelo tempo, no meio uma estátua de um homem com cara inexpressiva e nas mãos uma ampulheta parada, à sua frente uma mesa em pedra com pedaços de papel antigo, uma pena e tinta preta.
-Escreves o teu desejo e colocas dentro da ampulheta. – explicou José.
Isabel pegou na pena, molhou-a na tinta mas não escreveu. A mão tremia-lhe, os pensamentos voavam e as lágrimas começavam a fugir.
-A minha irmã não quer que eu peça para ela não morrer. Ela diz que aceitou o seu destino e pediu para eu apenas desejar por um dia sem dores, sem vómitos, sem sofrimento antes de ela morrer… - soluçou.
José não falou, mas ajudou-a a levantar-se e apoiou-a enquanto ela escrevia. Dobrou-lhe o papel e segurou-lhe a mão enquanto ela o colocava dentro da ampulheta. Aos poucos, desfez-se em areia que descia pelo canal da ampulheta.
-Espero que não vivas com a culpa de teres honrado o desejo da tua irmã.
José acompanhou Isabel até à aldeia mais próxima, onde depois cada um seguiu o seu caminho. José seguiu à procura de mais pessoas que precisassem da sua ajuda e Isabel deixou os pés levarem-na para casa, para a beira da irmã que correu a abraçá-la assim que a viu.
-Funcionou, Isa! – rodopiando no meio da floresta que rodeava a casa.
Isabel devolveu-lhe um sorriso triste.
-Não fiques assim, é o que eu quero. Por favor, não fiques triste…
À porta esperava-as uma mulher, que vivia na cidade mais próxima, que cuidou da irmã durante a sua ausência. – Um milagre. Um milagre!
A irmã não se calou o jantar todo, falando de todas as coisas que antes estava demasiado doente para dizer, dançou e riu até a enfermeira ir embora. Depois sentou-se ao lado da irmã a olhar em silêncio para a floresta e pousou a cabeça no seu ombro.
-Estou cansada, Isa. Um bom cansaço. Obrigada por não pedires que eu melhorasse, eu sei que te custou tudo, mas seria só temporário, iria continuar doente, seria uma mentira.
Isabel não falou. Sentiu a respiração acelerada da irmã a acalmar, o aperto do abraço dela, o beijo na face.
-Eu amo-te. – disse-lhe.
-Eu também te amo, para sempre.