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Contos em Folhas Azuis

Contos em Folhas Azuis

23
Fev19

Nadar

Sofia VillasBoas

Acordei esta manhã com o desejo súbdito de ir nadar. Então, apesar de ter chovido a noite inteira e o caminho para o rio estar todo enlameado, não hesitei a pegar nas minhas botas e sair porta fora logo de manhã ao acordar. Ninguém da minha família se tinha levantado, e ainda bem, teriam tentado parar-me, mas hoje não podia ser parado. Esperei a noite inteira, de olhos virados para a janela onde milhares de gotas batiam a chamar-me para elas. Hoje vou nadar. Não quero saber do frio que faz, dos animais que dormem nas suas tocas nem dos peixes que vou incomodar.

Há gelo nas margens do rio, onde este está parado, devia ser um sinal para me amedrontar, contudo começo a tirar o meu casaco de pelo grosso e as minhas três camisolas, ao tirar as botas e as meias, vejo já os meus pelos eriçados e a pele de galinha, como a minha avó lhe chama, a começar a formar. Estou só de cuecas e pés enterrados na lama e decido saltar para afastar o frio. Pulo como um coelho para mais próximo do rio e mergulho no sítio mais fundo que encontro. De outra forma diria que só molhar os pés me satisfariam e iria para casa envergonhado comigo mesmo por não ter coragem para mais, e insatisfeito por não ter absorvido toda a água que podia por todos os poros do meu corpo.

Podia dizer que o choque com a água gelada foi instantâneo, mas seria mentira. A água estava mais quente que o ar do inverno sendo mais difícil sair do que fora de entrar, já nem a cabeça queria tirar, se não fosse necessário respirar.

Pergunto-me porque não podia ter nascido um golfinho, um peixe ou um cavalo-marinho. Tinha logo que ser humano e ficar enrugado quando mais tempo na água fico. Nem me importava de ser um inseto-alfaiate e poder ficar o dia pousado sobre a água a balancear, só ficaria triste quando o inverno chegasse, em outro animal teria que me transformar ou morreria de saudades.

Dou cambalhotas e mergulho, deito-me a olhar o céu que vai ficando cada vez mais claro e fico a ouvir a água a suspirar aos meus ouvidos e a tocar levemente em toda a minha pele.

Quando não posso vir ao rio fico no meu quarto à janela a observa-lo a correr e isso dá-me paz. Imagino-me sentado no meio da relva enlameada, por entre a erva alta a olhar para as montanhas de água altas que nunca estão paradas, para os montes pequenos que formam espuma, para as planícies rugosas que atraem todo o tipo de insetos. E salto, mesmo na minha imaginação, para o meio dos seus braços, porque não consigo ficar afastado.

A minha mãe chama-me pato, mas eu não quero voar, só nadar. Por isso resmungo e peço-lhe que ao menos me chame peixe, que me dê barbatanas no meu dia de anos e que deseje guelras para me tornar tritão.

Que bom que seria encontrar uma sereia e com ela me casar, podíamos viver debaixo de água para sempre e só de vez em quando vir a terra visitar. Mas o sonho não dura sempre e depois de apenas uma hora a sonhar ouço a minha mãe a chamar ao longe dizendo-me para despachar.

Suspiro o desespero debaixo de água e observo as bolhas a subirem para a superfície, vou até ao fundo e raspo com as mãos na areia, sentindo um peixe a aproximar-se da minha perna, como se me fosse cheirar. Como não posso ficar faço-lhe uma festa nas suas escamas e preparo-me para sair.

Apoio as mãos numa pedra e elevo-me para a margem com dificuldade. Fico todo sujo de lama até conseguir encontrar as minhas roupas perdidas na erva alta. Como não me consigo vestir porque os meus músculos começam a tremer sem eu nada poder fazer, decido correr até casa para aquecer e ir direito para o banho, onde posso ficar em água mais algum tempo antes da minha mãe voltar a resmungar.

01
Nov18

A casa em chamas

Sofia VillasBoas

Era uma vez um rapaz que vivia numa casa que ardia. As suas paredes estavam pintadas de vermelho, laranja e amarelo e com os constantes terramotos da cidade, a casa vibrava de energia proporcionando um espetáculo de cores ardentes para quem tinha coragem de olhar no meio da confusão.

Certo dia, o chão tremeu com tanta intensidade que a terra se rasgou mesmo no meio do jardim do rapaz, mesmo quando os seus pais não estavam em casa. Pé a pé aproximou-se do buraco, duas vezes maior do que ele, mas o que viu foi apenas o seu amigo que morava na casa ao lado a correr para ele, pois o buraco era mais escuro que a noite.

Se os seus pais tivessem em casa, o que aconteceu a seguir nunca teria acontecido, seria apenas um buraco que seria tapado e nunca descoberto, mas felizmente eles não estavam e por isso, aquele buraco estava cheio de possibilidades…

Os dois amigos prepararam-se para a aventura de descer o desconhecido, antes que os pais vissem a asneira, e em poucos minutos, estavam os dois presos a uma corda velha, presa ao muro preto que os separava da estrada.

Fazendo a sua própria escada, espetando as pontas dos pés e das mãos na terra castanha das minhocas, desceram o buraco, vendo o céu a ficar preto e o chão a ficar azul.

Entraram de pés numa terra ao contrário, em que os monstros vagueavam livremente e os humanos eram assustadores.

Monstros verdes ou cor-de-rosa, com três olhos ou cem, rastejantes ou berrantes, por toda a parte se viam a viver as suas vidas da forma mais normal que se conhecia. Até que os viram. Os dois meninos com as cordas presas à cintura a saírem de um buraco no meio da avenida. O medo foi tanto, que os gritos ecoaram até ao grande edifício castanho onde a avenida terminava e fez tremer as paredes de tal modo que todo o pó dos anos acumulado espalhou por toda a avenida e escondeu os intrusos daquele lado.

Como todos os monstros deixaram de saber para que lado correr, instalou-se uma nova confusão, em que todos tentavam ouvir para onde os seus companheiros estavam a ir. Um enorme monstro parecido com um morcego branco com pelo felpudo foi contra um outro que parecia uma girafa com a cabeça a arder e as patas feitas de madeira e então, empurraram um terceiro monstro, feito de gosma cor-de-rosa com um peixe a nadar no seu interior, para o buraco pelo qual as crianças tinham saído, tapando-o.

Rápidos como relâmpago tiraram a corda da cintura para se esconderem antes que o pó sossegasse e correram de mãos dadas para um edifício mesmo ao lado, de paredes brancas e janelas azuis, mas nenhuma porta…

Nisto, foram elevados no ar por um monstro preto mais fino que um fio, com uma cabeça triangular que tentava falar para eles na língua das focas. O monstro abriu uma janela do segundo andar da casa ao lado com o seu nariz e meteu-os lá dentro, entrando logo a seguir.

Avançaram, sem certeza, por um enorme corredor multicor e desnivelado a cada passo que davam, seguidos pelo monstro que era tão grande que precisava de andar de gatas. Olhavam para trás à vez só para ouvirem o monstro a resmungar na sua língua, até que chegaram a uma porta maior do que o teto.

Encostaram-se à parede sem saber o que fazer, mas como medo eles não conheciam e aquele novo mundo queriam explorar, sabiam que por aquela porta não podiam entrar.

Desataram a correr por um outro corredor, que ficava cada vez mais pequeno e branco à medida que avançavam, até entrarem por uma porta, a qual só de gatas os deixavam passar para uma sala cheia de monstros de plumas brancas que espirravam sem parar. Correram pelo meio deles, abrindo os braços para lhes tocarem e viram o monstro fino a passar deitado pela porta de onde tinham entrado. Sorriram para ele, que parecia nadar em plumas, antes de saltarem pela janela para os ramos de uma árvore rosa-pálido e folhas verde-lima que assim que sentiu o peso da primeira criança começou a andar, deixando o menino a segurar o vizinho que quase caía do segundo piso.

O rapaz preso apenas pelas pernas cruzadas numa árvore tão lisa como o lenço de seda preferido da sua mãe, segurava com toda a força que tinha pelo seu amigo, contudo a fascinação por aquele mundo era tanta que aquilo não os impedia de olharem de boca aberta para tudo quanto podiam.

A viagem nos ramos daquele monstro não durou muito, pois foi apenas para a parte de trás da casa, deitar-se ao sol laranja com as suas raízes na água da piscina azul, mas foi suficiente para deixar o bichinho nos rapazes de quererem fazer daquele mundo o seu novo esconderijo secreto. Não podiam simplesmente ir-se embora sem nunca mais voltarem, mesmo que os monstros tivessem medo deles, porque haviam maravilhas que nunca tinham visto, nem nunca mais veriam caso não regressassem.

Desde casas do tamanho de uma uva, até ao edifício castanho no fundo da avenida, o maior de todos, tão grande como um arranha-céus da sua terra. Todos os monstros que tinham visto e muitos mais que faziam a sua vida como se fossem humanos, a ir para a escola ou para o trabalho, a conduzirem ou tocarem piano. Tantas cores que os humanos ainda nem sequer tinham descoberto…

Na rua ao lado, podia-se ver um monstro que parecia uma bolinha a andar de um lado para o outro, sempre à volta de um que parecia ser a sua mãe, mudando constantemente de cor e tamanho, imitando outros monstros que ia vendo pelo caminho. A mãe irritada ficou vermelha para o mandar parar, então o pequeno monstro ficou pequeno, cinzento, com uma nuvem por cima da cabeça e seguiu caminho em linha reta.

Assim que os seus quatro pés calcaram a relva foram vistos por um monstro vermelho-escuro que ficou tão branco, como os monstros de plumas brancas. Foi então que o monstro preto de cabeça triangular os encontrou e os afastou lentamente do outro petrificado. A linguagem das focas voltou, primeiro calmamente, pois ainda estavam próximos da piscina e depois rapidamente, como se ele resmungasse.

Voltou a coloca-los na mesma janela da primeira vez e seguiu-os de perto para evitar que fugissem novamente. Quando chegaram à porta maior do que o teto, separou-os, cada um para seu lado, pensando que assim não escapariam.

O monstro abriu a porta, cujo puxador era demasiado alto para os rapazes.

Um homem gigante e barbudo estava sentado ao fundo da sala numa mesa de madeira igualmente gigante, assim que ouviu o barulho levantou os olhos e observou-os através dos seus óculos grossos amarelos. O monstro preto falou e o homem ouviu atentamente, depois grunhiu muito alto e um outro monstro apareceu vindo de baixo da secretária.

Uns tantos mais grunhidos depois, que pareceram entendidos por todos menos as crianças, estavam a ser novamente dirigidos pela casa por um monstro que parecia um elefante da altura deles, com a cauda em forma de bola de pelo tão cinzenta como o resto do corpo. Pararam em frente a uma janela do primeiro andar, de onde podiam ver o monstro de gosma cor-de-rosa ainda preso na fenda e vários monstros à volta a tentarem libertá-lo.

A poeira já tinha assentado na sua maioria e o resto dos monstros tentavam continuar as suas vidas como se nada tivessem visto.

O monstro elefante tirou do canto da sala um guarda-chuva que mais parecia um manto preto, pois cobria-os das cabeças aos pés sem dar a entender que eram humanos. De seguida, abriu a janela e pulou para a rua, esperando por eles que batalhavam com a janela, para conseguirem passar sem serem vistos.

Ao chegarem à fenda tapada, o elefante inspirou com tanta força que se tornou num balão tão grande como os outros monstros à volta dele, e depois, soprou com tanta força que conseguiu tirar o monstro preso da fenda e empurrar todos os outros que tinham ficado a ver.

O pequeno elefante apontou com a sua tromba para a corda que ainda esperava pelas crianças para os levar de volta a casa. No entanto, assim que começaram a descer, sentiram o terramoto da terra dos humanos a fechar a fenda onde estavam.

Quando os pais chegaram, estavam as duas crianças sentadas no meio do jardim, a corda presa na terra e um peixe cor-de-rosa num aquário de vidro e ar, no meio deles.

Assim que pudessem, escavariam.

30
Jun18

Perdida no Deserto

Sofia VillasBoas

Isabel olhou para o seu próprio peito vendo-o a subir e descer com a respiração pesada. O chão de areia queimava-lhe as costas enquanto tentava recuperar um bocado as forças. Não estava arrependida de ter vindo para o meio do deserto, mas desejava ter trazido mais água. Pensara que por esta altura já teria encontrado o templo, mas enganara-se, e agora, com a visão turva pelo calor, amaldiçoava a escolha.

Levantou-se com esforço e olhou para o fundo do cantil. Decidiu dar um golo. Quanto mais aguentaria?

A areia dançava-lhe à volta dos pés, enterrando-os um pouco, enquanto avançava. Nada mais havia do que azul e amarelo por quilómetros e quilómetros, e por isso a sua mente vagueava para sítios mais familiares.

Imaginava a montanha, onde a sua casa ficava, tão cheia de cor e texturas; os canais dos velhos troncos, as duas faces das folhas verdes, amarelas e vermelhas, as pequenas aldeias que os cogumelos selvagens formavam… Tudo à espera do retorno dela, para poderem voltar a ser observados.

Tentou esfregar os olhos vermelhos que lhe começavam a pregar partidas, mostrando ao longe um lago imenso, capaz de lhe saciar a sede. Sugou a água morna e acabou com o cantil ao molhar a cara e a cabeça para se tentar refrescar e diminuir a dor de cabeça.

Agora sentia-se a dar tudo o que tinha, o templo era tudo o que ela pensava, caminhou mais rápido, com passos mais largos, por uma areia agora mais dura.

Teve uma cãibra na perna que a atirou ao chão, esfolando os braços e as mãos. Tentou esfregar o músculo controlando o tremor que surgiu, mas de nada adiantou e por isso, cerrou o punho e bateu na perna a chorar. A dor acalmou e ela enrolou-se no chão para se controlar, soprando para as feridas que também choravam.

Alguns momentos mais tarde, levantou-se com esforço, tropeçando no ar, cambaleando como se a empurrassem de todos os lados. Olhou à volta, esperançosa de ver o templo, mas o que viu deitou-a abaixo, caindo de joelhos com o peso da realidade.

Uma tempestade de areia aproximava-se com toda a força e, em breve, arrastaria com ela a visão de Isabel e todas as possibilidades de encontrar o templo.

Isabel voltou a levantar-se, vomitando com o esforço, depois cobriu a cabeça com um lenço, deu uns passos diagonais e acabou a desmaiar…

Sentia-se quente e fria ao mesmo tempo. Sentia panos molhados que lhe refrescavam a pele sensível, arranhando-a ao mais pequeno movimento. Queria abrir os olhos, mas estes ardiam e também eles estavam tapados- Gotas escorriam-lhe pelas bochechas, mas não sabia se eram água dos panos ou lágrimas. As feridas de ter caído latejavam suavemente e a sua garganta continuava seca.

Mexeu o braço direito a custo, levitando-o sobre o tapete áspero onde estava deitada.

-Não te mexas. – sussurrou-lhe uma voz masculina por cima do assobio da tempestade de areia.

-Água… – arranhou a voz dela.

Sentiu o homem a aproximar-se, colocando-lhe uma palhinha na boca e a água do pote desapareceu em pouco tempo. Pediu mais num suspiro desesperado e o homem obedeceu, trazendo-lhe mais dois potes cheios de água que ela devorou em minutos.

Tentou virar a cara para retirar os panos de cima dos olhos, mas o homem impediu-a logo:

-Tem remédio, ajuda a curar mais rápido as queimaduras do sol. Não tires para já.

-Onde estou?

-No mesmo sítio onde caíste no deserto. Montei a minha tenda à volta. Tiveste sorte em eu ver-te antes da tempestade. Toma, come.

O homem aproximou carne salgada dos lábios gretados dela, alimentando-a até ficar satisfeita, depois afastou-se para a deixar adormecer.

Acordou com o homem a mexer nos panos da sua mão. A tempestade continuava com toda a força, não sentia o peso dos panos nos olhos e por isso abriu-os, deparando-se com uma tenda castanha e velha.

A tenda não era muito grande, apenas continha o essencial, vários potes empilhados a um canto, um pequeno fogão transportável e um baú, que Isabel pensou conter comida e roupa, o chão estava coberto por um tapete multicor, em que estava deitada.

O homem usava uma túnica às riscas azuis e amarelas e tratava das suas feridas com um enorme cuidado.

-Obrigada.

O homem sorriu, continuando o que estava a fazer. – Devias ter mais cuidado. O deserto é perigoso, não devias vir tão desprevenida.

-É que… - hesitando por breves momentos – estou à procura de um templo, mas não o consigo encontrar.

Ele levantou a cabeça da sua mão e olhou-a nos olhos, como se a tivesse a estudar, quando finalmente falou, fê-lo com uma voz ainda mais grave.

-Deve ser algo mesmo muito importante para te aventurares desta maneira. Podias ter morrido só para encontrar o templo.

-Sabes onde fica?

-Sei.

O coração de Isabel bateu mais depressa, sentiu necessidade de se pôr a pé, mas o homem previu o seu pensamento e colocou-lhe a mão no ombro para a impedir. – Eu preciso de ir lá, o mais rápido possível.

-Vais ter de aguardar até a tempestade passar.

-Quanto tempo?

-Depende da tempestade, algumas duram semanas…

-Eu não tenho semanas. Eu nem sei se ainda tenho tempo…

-Infelizmente, esperar é tudo o que podemos fazer. Sair da tenda com uma tempestade destas não seria sensato. A própria tenda já está enterrada em areia até meio.

Isabel deixou estar no tapete enquanto o homem lhe acabava de tratar das feridas, enquanto ouvia o assobio da tempestade e a noite chegava.

O templo era conhecido por conceder um desejo a quem o encontrasse no meio do deserto, mas eram poucos o que o encontravam, o deserto era vasto e nem todos sobreviviam a ele. Os poucos que conseguiam alcançar o templo tinham ainda que provar que o seu desejo era nobre, pois se não fosse o templo desapareceria diante dos seus olhos e nunca mais o conseguiriam encontrar. Contudo o poder do templo também não era infinito…

José, o homem que a salvou, ajudou-a a levantar-se para comer. Os panos continuaram enrolados aos seus membros e não se mexeram o jantar todo.

-O que é isto? – olhando para a sopa que ele tinha feito, que continha pedaços de carne branca de aparência estranha.

-Cobra. – respondeu – É bom. Não há muita comida no deserto. – acrescentou ao ver a expressão que Isabel fez.

Saber o que era, era pior, pois o sabor em si nada tinha de especial, no entanto esforçou-se para engolir rápido.

-Que desejo é que pediste? – perguntou Isabel.

-Para ajudar pessoas.

-Isso é um pedido estranho…

-Eu tinha um namorado que foi espancado e morto por ser quem era. Eu não o pude ajudar, cheguei tarde. Tive também de fugir e eventualmente encontrei alguém que me falou sobre o templo. O meu primeiro pensamento foi de pedir para o ter novamente comigo e foi com esse pensamento que me aventurei no deserto. Quando finalmente encontrei o templo percebi que onde quer que ele tivesse estava em paz e que o que eu queria era egoísta, por isso pedi que eu conseguisse chegar a tempo para ajudar outras pessoas.

-Foi por isso que chegaste mesmo a tempo de me encontrar desmaiada, antes da tempestade…

Ambos acabaram de comer em silêncio, até que José lhe perguntou qual o desejo dela.

-A minha irmã está doente, tem cancro. Eu quero pedir para que ela melhore e não morra.

A cada dia que passava a tenda tremia menos com a tempestade, a areia começava a puxar pelo tecido a querer entrar. Uma semana depois de ter começado, a tempestade parou. Isabel ajudou José a retirar as suas coisas debaixo da areia e olhou à volta no deserto, contudo parecia igual, areia e céu por quilómetros.

-Para que lado é o templo?

José retirou do bolso da túnica uma bússola e apontou. – Eu levo-te lá.

A caminhada foi rápida, tinham estado perto do templo aquele tempo todo. O templo era simples de pedra amarela, gasta pelo tempo, no meio uma estátua de um homem com cara inexpressiva e nas mãos uma ampulheta parada, à sua frente uma mesa em pedra com pedaços de papel antigo, uma pena e tinta preta.

-Escreves o teu desejo e colocas dentro da ampulheta. – explicou José.

Isabel pegou na pena, molhou-a na tinta mas não escreveu. A mão tremia-lhe, os pensamentos voavam e as lágrimas começavam a fugir.

-A minha irmã não quer que eu peça para ela não morrer. Ela diz que aceitou o seu destino e pediu para eu apenas desejar por um dia sem dores, sem vómitos, sem sofrimento antes de ela morrer… - soluçou.

José não falou, mas ajudou-a a levantar-se e apoiou-a enquanto ela escrevia. Dobrou-lhe o papel e segurou-lhe a mão enquanto ela o colocava dentro da ampulheta. Aos poucos, desfez-se em areia que descia pelo canal da ampulheta.

-Espero que não vivas com a culpa de teres honrado o desejo da tua irmã.

José acompanhou Isabel até à aldeia mais próxima, onde depois cada um seguiu o seu caminho. José seguiu à procura de mais pessoas que precisassem da sua ajuda e Isabel deixou os pés levarem-na para casa, para a beira da irmã que correu a abraçá-la assim que a viu.

-Funcionou, Isa! – rodopiando no meio da floresta que rodeava a casa.

Isabel devolveu-lhe um sorriso triste.

-Não fiques assim, é o que eu quero. Por favor, não fiques triste…

À porta esperava-as uma mulher, que vivia na cidade mais próxima, que cuidou da irmã durante a sua ausência. – Um milagre. Um milagre!

A irmã não se calou o jantar todo, falando de todas as coisas que antes estava demasiado doente para dizer, dançou e riu até a enfermeira ir embora. Depois sentou-se ao lado da irmã a olhar em silêncio para a floresta e pousou a cabeça no seu ombro.

-Estou cansada, Isa. Um bom cansaço. Obrigada por não pedires que eu melhorasse, eu sei que te custou tudo, mas seria só temporário, iria continuar doente, seria uma mentira.

Isabel não falou. Sentiu a respiração acelerada da irmã a acalmar, o aperto do abraço dela, o beijo na face.

-Eu amo-te. – disse-lhe.

-Eu também te amo, para sempre.

09
Jun18

Gato

Sofia VillasBoas

Há uns tempos atrás, fui com o meu namorado a um casamento de um amigo. Estava tudo magnífico. A cerimónia tinha tido uma banda ao vivo que iria continuar a tocar o resto da noite, o vestido da noiva era pérola e tinha o bordado mais lindo que eu alguma vez vira, o noivo tinha os olhos vermelhos, eu nunca o tinha visto chorar…

O meu namorado aproveitou para tirar uma foto à entrada da igreja e eu não consegui evitar de o apanhar de surpresa e juntar-me a ele, infelizmente o meu lenço voou com o vento no preciso momento em que eu me estava a colocar na fotografia e então a cara dele ficou por trás de umas ondas azuis. Graças aos reflexos rápidos dele, o lenço nem o chão tocou.

Enquanto me ajeitava e ele verificava como a foto tinha ficado, uma ninhada de gatos vadios irrompeu pelo meio dos convidados que esperavam os noivos saírem para os felicitar. De imediato houve várias pessoas que começavam a dar festas aos gatos e um pouco de comida. Um dos gatos ignorou todas as outras pessoas que o tentavam pegar e foi de mansinho ter com o meu distraído namorado.

O gato cinzento miava aos pés dele por atenção, esfregando-lhe a cabeça nas pernas, até que se apercebeu da minha presença. Nunca fui muito apreciadora de gatos, prefiro cães, mas só estava a olhar para ele com curiosidade, perguntando-me porque é que de todas as pessoas que estavam ali ele tinha ido logo ter com o meu namorado que ainda nem sequer se tinha apercebido da presença dele, porque ao contrário de mim, ele adora gatos. O gato levou a mal eu estar a olhar para ele, e deitou logo as unhas de fora pronto para me atacar.

Fiz uma cara de chateada e estava prestes a virar-lhe a cara e ignorá-lo quando ele se lembra de me saltar para cima. Uma bola de pelo cinzento voava para mim com as suas minúsculas patas com as garras afiadas pontadas diretamente a mim. O que é que eu lhe fiz para ele reagir desta maneira? Levantei o braço para me proteger do ataque, mas ao fazê-lo toquei-lhe, desviando da sua trajetória e fazendo-o cair ao chão.

Magoou a pata e começou a miar com tanto fervor que só agora é que o meu namorado se apercebeu do que se estava a passar.

-O que é que aconteceu?

-Ele ia-me atacar… - mas não adiantou, lançou-me um ar de desaprovação e começou a fazer festas ao gato que chorava. – Pronto, está bem, podemos levá-lo para casa…

Os olhos do meu namorado brilharam para mim e até o gato pareceu perceber o que eu tinha dito porque parou de ronronar.

Hoje em dia, dorme e come na nossa casa, eu diria viver, mas ele desaparece por horas a fio para só voltar à noite a pedir comida. Cada vez que quero aproximar do meu namorado, tenho que pedir autorização ao gato...

11
Mar18

Fantasma

Sofia VillasBoas

O quarto estava envolto numa estranha névoa espessa como algodão. Deixou a porta aberta e seguiu a parede para encontrar a janela. Sentiu uma pancada no joelho mesmo no momento em que encontrou a reentrância na parede. Apalpou a madeira e depois os lençóis. Meteu-se em cima da cama para abrir a janela e conseguir dispersar o nevoeiro.

A porta fechou-se de rompante, num estrondo que lhe fez saltar o estômago. Certificou-se que a janela não fecharia e voltou devagar para a porta e abriu-a.

O quarto do hotel começou aos poucos e poucos a surgir. Era bastante simples e pequeno, a mobília era antiga. Do lado oposto à porta, surgiu a figura de algo que não pertencia ali, um velho móvel com copos de cristal e pratos de porcelana antiquada; as suas portas de vidro refletiam o quarto indicando movimento ao lado dela. Virou-se olhando para o corredor, mas não viu ninguém, olhou novamente para o vidro e colocou-se em pontas de pé para poder ver melhor…

Ao seu lado encontrava-se uma rapariga pálida que brincava com as mãos no seu cabelo preto longo, esperando, também ela que o nevoeiro do quarto dispersasse.

Inundada pelo medo de ter acabado de ver um fantasma, correu pelo corredor fora à procura de alguém que a ajudasse. A primeira pessoa que encontrou foi um homem baixo e com uma grande barriga que ficou petrificado quando a viu a correr para ele e a abraçá-lo com uma enorme força.

-Há um fantasma no meu quarto! – gritou a rapariga.

Tentou acalmá-la, sem sucesso, e seguiu-a para o tal quarto. À chegada, também ele ficou perplexo. Uma rapariga translúcida preparava-se para deitar, desmanchando a cama, penteando o cabelo, como se nada se passasse à sua volta.

-Aquela cama não estava aqui ao bocado. – sussurrou a rapariga que o tinha trazido, como se tivesse medo que a fantasma a ouvisse. Fechou a porta do quarto, agora com duas camas, devagar, para dar tempo para pensarem no que haviam de fazer.

-Eu não quero ficar aqui! – gritou num sussurro a rapariga.

-É muito tarde para andar à procura de outro hotel. – tentou raciocinar o homem.

-Então eu não quero este quarto! Quero outro.

-Vamos chamar o dono do hotel e falar-lhe sobre o fantasma.

O dono do hotel foi ter com eles ao corredor, perto do quarto do fantasma. Informou, com pesar, que não existiam quartos disponíveis e que a maioria dos hóspedes já se encontravam a dormir.

-Eu não quero aquele quarto!

-A única solução que vejo é ficar talvez nos bancos da receção a tentar dormitar até amanhã, não se preocupe que eu devolvo-lhe dinheiro. E ainda lhe dou um cupão para a sua próxima visita.

A rapariga olhou para ele com desdém, preparando-se para resmungar, mas antes que pudesse a porta do quarto abriu-se e de lá, saiu o fantasma com escova de dentes na mão, camisa de dormir e… uma grande barriga de grávida. Ao caminhar arrastava consigo um som aterrador, agudo e penetrante, de fazer arrepiar a espinha, enquanto murmurava palavras sem sentido.

Os três abriram espaço entre eles para o fantasma passar, contudo quando passava pela rapariga, esta foi invadida por uma enorme raiva que lhe fez pegar nos cabelos da fantasma e puxá-los com toda a força, obrigando-a a parar e voltar-se para trás.

-Para com esse barulho!! De onde raio é que ele está a vir!? Para!

A fantasma não lhe respondeu, ou sequer pareceu reconhecer a sua presença, limitou-se a virar-lhe costas e a voltar ao seu caminho para a casa-de-banho no final do corredor. Mas, a rapariga voltou a interrompe-la, voltando a puxar-lhe os cabelos, desta vez apercebendo-se do terror que estava a provocar aos dois homens à sua beira que levantaram os braços para a parar e encolheram-nos quando não foram a tempo.

A fantasma voltou-se a virar-se calmamente para ela, olhando para o vazio. A rapariga cerrou os punhos com enorme frustração.

-TU NÃO ESTAVAS GRÁVIDA! TU NÃO ESTÁS GRÁVIDA! – e deu-lhe uma pequena palmada na barriga gigante. PUF, a barriga desapareceu.

Ficou silêncio.

Os dois homens estavam petrificados, mais brancos do que a parede.

A fantasma pareceu finalmente reparar na rapariga, olhando para esta chocada com o que ela tinha acabado de fazer.

A rapariga ficou parada, intercalando o olhar entre a cara da fantasma e a sua barriga novamente pequena. – Oh meu Deus, o que será que vai acontecer agora?

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